Greyson
conhece sua mãe
Minhas pernas tremeram. As mãos
começavam a suar sobre o armamento. Ao lado eu via Tom mais pálido do que nunca
visto antes, e Greyson me olhando como se estivesse se despedindo com os olhos.
— Plano A. — Joe começou quando
estávamos no fim da colina. — Se escondam e rastejem como animais, não deixem
que te vejam.
Todos assentiram.
— Não se isolem. Não fiquem sozinhos.
Não pisquem. Não se dispersem. Não façam barulho. Entrem no laboratório, peguem
o antídoto e saiam, nem que isso signifique deixar os outros morrerem. Não
banquem o herói. Chegou a hora. — Joe concluiu.
...
Eles eram muitos, tinham quase dois
metros, tinham um odor insuportável, eram velozes.
Nos esquivamos em um posto de
combustível na entrada da cidade, passando por trás de tanques de álcool, nos
escondendo atrás de carros abandonados cidade a dentro. Logo a frente, a uns 50
metros os zumbis ficavam perambulando, se chocando com paredes, tropeçando em
valetas, encarando prédios abandonados, era agonizante vê-los vagando, eles
foram um dia pessoas, tinham uma família, filhos, uma casa. Agora não passavam
de defuntos caminhando sem rumo em busca de comida.
Quanto mais adentrávamos a cidade
mais eles apareciam, 90, 100, eram muitos, ficava muito difícil de passar
despercebido, então nos separamos. Jon, Tom e Brendan, e eu e Greyson.
Greyson e eu estávamos escondidos
atrás de uma prédio abandonado e a 1 quilômetro a frente o laboratório,
esperando um momento seguro para avançar.
— Escute Ellen. — Greyson sussurrou
sem tirar os olhos do laboratório — Se eu não sair vivo dessa, quero te dizer
uma coisa.
— O que?
— Eu...
Ele interrompeu-se. Alguma coisa estava
vindo em nossa direção, o barulho de passos lentos e pesados, mirei a arma na
direção do barulho. Logo a luz da lua revelou do que se tratava.
Era uma mulher, usava um vestido
longo, sujo e ensanguentado, tinha cabelos longos, pretos e armados, uma pele
pálida cheia de poeira, cheia de cortes, olhos claros, quase brancos com um tom
avermelhado. Levava no pescoço um colar, o mesmo de Greyson.
— Mãe? — Greyson falou perplexo e
boquiaberto.
— G-Grey, não é sua mãe, você sabe,
ela... — Minha voz falhou.
— Não Ellen, é minha mãe, veja... —
Ele olhava para a criatura sem se mover.
Não havia sombras de dúvidas, era a
mãe de Greyson, tinha os mesmos olhos que ele e levava o tal colar, aparentava
ter 25 anos, mas com uma pequena diferença, ela estava infectada com o vírus e
queria comer nossas tripas, a prova disso eram os cortes no rosto, naquele
lugar, qualquer corte, resulta na metamorfose.
Greyson levantou a mão e deu um passo
a frente, ele queria tocá-la. A criatura não recuou nem demonstrou nenhuma
expressão humana, ficou parada feito uma estátua.
— Greyson... Afaste-se. — Falei
tentando parecer mais segura do que estava.
— Você não entende... É minha mãe...
Ela voltou... Voltou pra mim... — Ele sussurrou dando outro passo a frente.
Aquela coisa o devorava com os olhos,
Greyson não percebia que ele estava caminhando para o suicídio, eu não poderia
deixar isso acontecer, mirei na testa da criatura e coloquei os dedos sobre o
gatilho. Greyson virou se para mim apavorado, tirou a arma da minha mão e jogou
longe.
— Você não vai matar a minha mãe! —
Ele berrou ao atirar a arma longe.
— Aquilo não é a sua mãe! — Gritei de
volta.
Mas o zumbi não ia ficar nos
observando discutir e antes do Greyson me dar uma resposta aquilo o puxou e o
atirou longe, Greyson caiu e bateu a cabeça no velho muro do prédio. Atordoado,
Greyson não conseguiu se levantar e o zumbi avançou em direção ao Greyson.
Corri e peguei a arma, quando me virei, as unhas do demônio já estavam cravadas
no peito do Greyson, ele gritava com a dor, sem pensar duas vezes, atirei. O
tiro foi certeiro, dois deles e o zumbi caiu para trás. Corri ao seu encontro.
— Grey, meu Deus. — Me ajoelhei em
lágrimas ao seu lado.
— Aquilo não era minha mãe, não é? —
Ele disse atordoado em meio ao sangue.
— Não querido, não era.
Seu peito sangrava muito, seu braço
estava todo cortado e sua cabeça com um corte enorme que jorrava sangue.
— Você a matou...
— Me perdoe... — Comecei a soluçar. —
Mas eu não tinha escolha, eu...
— Ellen, você a matou... — Deu um
grande sorriso, fraco, porém sincero. — Matou um zumbi, você conseguiu. Você me
salvou...
Ele me presenteou com um sorriso que
fez tudo valer a pena, um sorriso que tocou lá no fundo. Eu poderia ficar o
admirando para sempre.
— Você tem... Você tem que sair
daqui. — Ele falou, agora com a voz falhando.
— Não vou te deixar aqui.
— Você não vê? Daqui a 15 minutos vou
querer comer suas tripas! Ellen, eu estou infectado!
— Não! — Comecei a soluçar.
— Se eu tiver sorte, eu morrerei
antes do vírus fazer efeito.
—Não, por favor...
— Saia! — Ele berrou.
Me levantei.
Ele começou a se contorcer, suas
unhas rasgavam a terra, eu não queria ficar ali para assistir a dolorosa
mutação, não havia nada a fazer. Me lembrei de Brendan e da atitude do Joe. Joe
o matou, não poupou, eu deveria fazer o mesmo, atirar na cabeça, um zumbi a
menos...
Mas era óbvio, depois nada faria sentido, como
eu iria continuar, matando a pessoa que eu mais... Que eu mais... Enfim, agora
eu sabia o como foi difícil para Grey, eu entendi como Greyson não conseguiu
matar sua ‘mãe’ mesmo estando infectada. Eu não queria pensar mais nesse
assunto.
— Eu vou te salvar, vou pegar a cura,
aguente firme. — Decidi à final.
— Ellen... — Ele me chamou ofegante.
— Eu falhei.
— Ainda não.
Dizendo isso sai correndo. Eu não
queria me esconder, não queria passar despercebida, só queria sair logo daquele
inferno. Corri para o meio da multidão de zumbis que se formava na frente do
laboratório e usei meu pavor, meu ódio, meu espanto e minha tristeza a meu
favor. Comecei a atirar como uma louca, não mirava, nem olhava. Apenas saia
correndo disparando balas e via zumbis caindo, atingidos.
Por um infeliz acaso, resolvi olhar a
volta. Vi Tom no chão, caído. Logo na frente, Jon. E Joe logo em seguida. Todos
mortos. Cada um com cinco ou seis demônios se alimentando.
Não me lembro exatamente do que
aconteceu em seguida. Meu raciocínio ficou anestesiado, em volta vi tudo em
câmera lenta. Lembro-me de ter usado toda minha velocidade. Esquivei de um.
Acertei outro na cabeça com a parte de trás de minha arma. Passei por baixo de
outro. Segui instintos que aprendi em anos de aulas práticas e teóricas, apesar
de saber que nunca conseguiria entender tudo, não me sai tão ruim quanto
imagina.
Em um segundo percebi que as balas acabaram.
Foi o momento que tive mais pânico desde que sai da proteção do paredão. Comecei
a tremer, meu sentidos voltaram, só o que pensei em fazer foi correr. Olhei
para trás, eles me seguiam, correndo a toda velocidade eu não tinha mais
chances, eu... Eu senti uma pancada no corpo todo que me fez cair para trás, eu
tinha trombado com uma porta... Uma porta... Do laboratório!!
Acho que não consegui dar nenhum meio
sorriso, mas eu não tinha ficado tão feliz assim há anos. Girei a maçaneta,
óbvio, estava tudo muito fácil, estava trancada. Dei um ou dois chutes na porta
e ela nem se moveu, atrás zumbis vinham a uma velocidade enorme e minha única
saída estava trancada. Eu podia atirar na maçaneta, mas eu estava sem bala. Antes
que eu começasse a soluçar ou esperar minha morte a porta abriu num movimento
brusco e um braço me puxou para dentro.
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