Nosso
Primeiro Zumbi
Com uma mochila nas costas, uma arma
posicionada na mão, e todo o peso de uma missão sob os ombros.
Os portões agora estavam totalmente
abertos, não havia nada lá fora. Sem demônios, sem pessoas, sem vida...
Passos calmos e pesados. Atrás, o que
restava do mundo nos observava como heróis, sacrificando nossas vidas para
salvar a deles.
Agora, estávamos fora do paredão. Os
grandes portões foram fechados as nossas costas. Uma visão de 360° graus fazia
me sentir incrivelmente bem, por um instante esqueci-me de tudo o que fomos
fazer. Por um momento eu só queria sair correndo e nunca mais voltar. Era incrível, o mundo era enorme, estava
morto e sem vida, mas isso não diminuía meu encantamento.
Agora, eu pude ver onde o paredão
estava localizado. No meio do nada, com muito verde e florestas em volta.
A brisa da manha balançou meus
cabelos, de longe, pude ver pela primeira vez o sol nascer.
— É tão... — Tom tentou achar
palavras para descrever.
— Enorme... — Greyson disse.
— Lindo. — Eu o corrigi.
Até mesmo Joe estava paralisado vendo
aquela imensidão, pude ver um sorriso em seu rosto, coisa rara.
— Vamos. — Joe disse andando,
tentando disfarçar a surpresa de sair pela primeira vez.
Nós os seguimos. Dei uma última
olhada no muro de concreto e segui em frente.
— O laboratório onde o antídoto foi
visto pela última vez está a 350 km a frente. — Brendan informou.
— Seria umas 4 horas e meia... De
carro! — Se espantou Tom
— Serão dias andando! — Me queixei.
— O que foi? A princesa não gosta de
andar? — Provocou Joe. — Quer dizer, posso te chamar de princesa?
— Não — Respondi.
— Hum, ok, princesa.
Não respondi, apenas lancei um olhar
de ódio a ele, que obviamente não o afetou.
Quando se tem dias de caminhada pela
frente, você descobre algumas maneiras de passar o tempo. Eu fiquei os
observando, pelas suas atitudes, forma de andar, de observar o mundo a sua
volta, comecei a tirar conclusões sobre os outros do grupo.
Tom era um cara legal, era quieto, na
dele. Alto. Pele branca como a neve. Tinha cabelos curtos, negros como a noite.
Olhos extremamente azuis. Era magro, com algumas sardas no rosto. Eu vi como
ele observava tudo a sua volta, não deixava passar nada, talvez ele estivesse
com tanto medo quanto eu, por isso ficava olhando para os lados, não queria ser
surpreendido por nenhum zumbi.
Joe era alto, moreno, cabelos
castanhos escuro. Muito forte. Um gênio difícil. Determinado, nunca tirava os
olhos do que estava a sua frente.
Os outros três não tinham nada de especial,
pareciam indiferentes, seguiam qualquer ordem, de cabeça baixa.
— Você está bem? — Greyson se
aproximou.
— O que?
— Parece cansada.
Eu estava, já tínhamos andado uns 10
quilômetros.
— Estou bem. — Menti. — Por que não
nos deram um Jipe ou qualquer outro carro?
— Por que faria muito barulho. —
Brendan entrou na conversa. — Eles são mais fortes, não podemos lutar. Então,
só resta se esconder.
— Mas é só dar um tiro na cabeça e
pronto.
— Parece que alguém dormia nas aulas
teóricas. — Joe se intrometeu.
Fingi não ouvir.
— É que antes mesmo de você sacar a
arma e mirar ele já estará em cima de você comendo suas tripas. — Brendan
explicou com calma. — Eles são muito rápidos e...
— Calem a boca! — Ordenou Joe,
paralisado — Escondam-se!
Nós entramos no meio de algumas
árvores e nos abaixamos. Comecei a entrar em desespero. Não sabia ao certo o
motivo de tudo aquilo. Ficamos observando, sem entender muito bem do que Joe
falava.
— Olhem! — Brendan sussurrou
apontando para o local onde estávamos.
Uma criatura, de 1,90m
aproximadamente, surgiu. Era como um humano, só que morto. Era como nos livros
que a escola nos mandava decorar, só que mil vezes mais assustador. Entrei em
pânico. A criatura parou, sentiu nosso cheiro e começou segui-lo.
— Droga, ele esta farejando! Corram!!
— Tom Gritou.
Entramos floresta adentro. Eu corri
desesperadamente, era difícil correr com tanto peso de duas mochilas, a minha e
a de suprimentos, soltei uma mochila, a deixei para trás. Continuei correndo
como uma louca. Pude ouvir a criatura atrás, grunhindo, como um cão com raiva,
o que me dava impulso para correr. Pensei em usar a arma, mas eu não
conseguiria mirar no alvo exato, a cabeça. A frente se aproximou uma mata
fechada, com arvores juntas de mais para prosseguir, parei, olhei para trás.
Não havia ninguém. Abaixei-me, engatilhei a arma e pus o dedo sobre o gatilho,
fiquei esperando.
Quando escuto um galho quebrar, senti
um arrepio na espinha. O barulho aumentou, como se algo estive correndo em
minha direção, entrei em pânico e comecei a correr na direção que eu vim. Como
se tudo conspirasse contra mim, enrosquei meu pé na raiz de uma arvore e cai.
Eu estava com tanta velocidade que ao cair bati minha cabeça no chão. Senti o
sangue escorrendo no meu rosto.
— Ellen! — Uma voz gritou. Uma voz
que veio na direção pela qual eu fugia.
— Ellen! — Gritou mais uma vez. — Não
fuja! Sou eu!
Reconheci a voz do Tom.
— Você me assustou! — Ele apareceu dentre as
árvores. Disse apoiando-se em seus joelhos, tomando fôlego
—Eu
te assustei? — Disse um pouco tonta. — Eu podia ter atirado em você.
— Eu sei, eu devia ter gritado antes
de... — Ele olhou para meu rosto. — Ah meu Deus, isso é sangue?!
— Não, estou suando. — Disse em tom
irônico, ainda no chão — Me machuquei feio, onde estão os outros?
— Jon conseguiu atirar no que estava
nos perseguindo. — Disse se abaixando, ele iria me pegar no colo. — Vim te
procurar. Venha, eu te ajudo.
— Não precisa. — Falei me levantando.
Mas foi inútil, a pancada na cabeça
me deixou tonta. Cai no chão de joelhos.
— Ellen! — Era a voz de preocupação
de Greyson, que apareceu logo em seguida— Você está bem?
— Sim... — Coloquei a mão na cabeça.
— Na minha mochila tem primeiros
socorros... — Tom disse tirando a mochila da costa. — Espere ai...
— Deixe, eu cuido dela. — Greyson
falou me ajudando a levantar.
— Não cara, espera ai, deve ter
alguma coisa por aqui... — Ele começou a revirar a mochila.
— Eu disse ‘Deixa’ seu idiota, você
não ouviu?! — Gritou.
Tom olhou perplexo. Eu estava tonta
de mais para, como sempre, mandar Greyson se desculpar, ou dizer para ele
deixar de ser tão grosso, apenas coloquei meu braço direito em volta de seu
pescoço e ele me ajudou a voltar aos outros. Tom seguiu atrás, em silêncio.
Voltamos aos outros, eles estavam
sentados, esperando que aparecessem outros daquele, ou simplesmente
descansando. Meu ferimento na cabeça foi grave, nem mesmo Joe quis fazer piada.
Greyson me colocou no chão, abriu sua
mochila e tirou uma pequena maleta de primeiros socorros. Sentou na minha
frente, e começou a cuidar dos meus ferimentos.
— Ellen... — Começou ele, sem tirar
os olhos do curativo que ele estava fazendo na minha cabeça.
—O que?
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