Rinocerontes
Zumbis nos atacam
Voltamos junto aos outros. Joguei a
garrafa de lado, perdi a sede.
Eu estava exausta. Após andar não sei
quantos quilômetros, que mais parecia ser daqui a lua, e quase ser atacada por
um zumbi, eu só queria descansar.
A noite caía e ela parecia mil vezes
mais assombrosa do que o dia.
O topo da colina era rochoso, muito
desconfortável, impossível dormir.
— Não vamos fazer uma fogueira ou
algo assim? — Perguntei a Greyson, sentado ao meu lado.
— Nada seria mais chamativo do que
fogo, no topo de uma colina deserta e a noite. — Ele disse com uma expressão
cansada. — Esta com frio?
Eu disse sim com a cabeça. Ele passou
seu braço direito e os colocou em meus ombros. Apoiei minha cabeça em seu
peito. Fechei meus olhos.
Acordei um pouco atordoada. O sol
nascia, devia ser umas seis horas da manha.
— Bom dia, princesa. — Joe disse em
tom sarcástico.
Apertei meus olhos.
— Onde Greyson está? — Perguntei.
— Seu namorado? Sinto em lhe
informar, mas ele se foi, eu lamento...
— O que?! — Gritei, entrando em
pânico.
— Deixa de ser besta, Joe. — Tom
disse. — Ellen, Greyson foi com Brendan andar pelo território, para ver se é
seguro continuar.
Suspirei aliviada.
Não demorou muito e os dois voltaram.
Fiquei feliz em vê-lo, realmente feliz.
— Vamos. — Brendan disse. — Só temos
que andar mais uns 300 quilômetros.
— Só 300 quilômetros. — Repeti para
mim mesma.
Descemos da colina. Agora com armas
posicionadas nas mãos, mochila nas costas. Eu estava descabelada, com manchas
escuras embaixo dos olhos. Por dois minutos nos espalhamos na floresta para
fazermos nossas ‘necessidades humanas’.
O dia prometia ser longo.
O dia todo andando. Calados. Não
comíamos desde que saímos do paredão. A cada movimento, a cada barulho
estranho, entrávamos em formação de ataque, mas era sempre árvores podres
caindo ou barrancos desmoronando em rios poluídos.
Era quase meio dia, o sol nos
castigava. Enquanto andávamos Joe começou a revirar sua mochila.
— Comam. — Joe nos jogou barras de
cereais.
Fiquei perplexa por ele ter me dado
uma, mas com certeza foi por obrigação ou ele teria que me carregar desmaiada.
— Você tem barras de cereais na bolsa
e só nos da agora?! — Marth falou inconformado.
— Eu tenho que racionar, tenho poucas
barras, então vamos comer uma por dia, levando em conta que ficaremos não mais
que 5 dias aqui. — Ele respondeu colocando a mochila de volta nas costas.
— Eu não contaria com isso. —
Murmurou Greyson.
— Por quê?
— Temos mais 200 quilômetros para
andar. Isso se não morrermos antes.
— Hm, morrer não, talvez virar zumbi.
Morrer seria na melhor das hipóteses. — Joe disse com um sorriso melancólico no
rosto.
— Vocês são muito otimistas. —
Ironizei.
Apesar das brigas, discussões e
desentendimentos, tentávamos deixar nossas diferenças de lado por uma causa
maior, sobreviver.
— Bom. Então plano é sobreviver de
barra de cereal e água com gosto de urina de elefante? — Greyson perguntou.
— Basicamente, já que alguém perdeu a
mochila de comida. — Joe respondeu.
— Espera, você conhece o gosto de
urina de elefante? — Tom perguntou.
Greyson não se deu ao trabalho de
responder.
O dia se passou. E outro, e outro.
Sobrevivendo de água de nascentes, barras de cereais amassadas e dormindo em
colinas. O tempo todo fiquei me perguntando por que tinham que colocar o muro
que nos protegia tão longe da cidade, que é onde os zumbis se concentram, mas
eu sabia a resposta. Quanto mais longe, melhor.
Tudo começou a ficar cansativo. Não
sentíamos mais as pernas. O sol começava a afetar de uma maneira assustadora a
pele branca do Tom, a noite ele se contorcia de dor. Eu o ouvia chorar nas
madrugadas, dizia que parecia que seu rosto e sua costa pegavam fogo, mas
ninguém podia fazer nada.
Depois do primeiro ataque de um
zumbi, nenhum outro animal fora de controle ou com olhos amarelos e pupilas
dilatas querendo comer nossas tripas apareceu. Ou talvez, eu tenha descoberto
isso um pouco cedo de mais...
Tarde do quarto dia, estávamos
fazendo a nossa única tarefa, andar. Eu ouvia Tom choramingando ou algumas
lágrimas descendo de seu rosto, o sol estava o castigando de uma forma muito
dolorosa.
— Joe, nessa sua mochila enorme não
tem nenhum protetor solar ou algum hidratante para ajudar Tom? — Perguntei a
ele.
Ele tirou a mochila das costas.
— Hm, deixe-me ver... — ele abriu o
zíper da bolsa. — Olha princesa, aqui só tem um pônei, três unicórnios, a
varinha das varinhas e um sabre de luz. Vai querer algo?
Revirei os olhos.
— Eu estou bem, Ellen. — Tom
choramingou para mim. — Não se preocupe.
— Não está não, você... — fui
interrompida.
— Escutem! — Disse Jon.
— O que? O que foi? — Brendan
perguntou.
— Olhem! — Greyson gritou apontando
para frente.
Eram criaturas do tamanho de
elefantes, correndo em nossa direção a uns 4 quilômetros na nossa frente. Eles
se aproximavam rápido, havia ao menos uns 50 deles.
— Zumbis? — Gritei
— Não. — Joe respondeu sem tirar os
olhos das criaturas, como se estivesse atordoado com o que via.
— Rinocerontes? — Greyson sugeriu.
— Não. Rinocerontes Zumbis. — Jon
disse.
— Eu sugiro correr. — Brendan disse
com a voz trêmula.
— É. Com certeza. Corram!
Ao lado havia uma vegetação intensa,
uma pequena floresta. Entramos desesperados mata adentro. Pude ouvir as patas
pesadas trotando em uma marcha assustadora em nossa direção, quebrando galhos,
derrubando arvores, e seus urros de fome e ódio. Eu estava mais concentrada em
correr do que sentir medo. Dessa vez, tentei, da maneira possível, não me
perder dos outros. Pensei na arma, mas para animais daquele tamanho, nem mesmo
15 tiros os afetariam.
— As árvores! Subam nas arvores!
Agora! — Joe ordenou, mas o mesmo, não fez o que nos mandou fazer, ele
continuou correndo.
— Aonde você vai? — Gritei para ele.
— despistá-los! — Pude ouvi-lo de
longe.
Greyson me ajudou a subir em uma árvore
alta, com tronco grosso cheio de musgo, o mesmo subiu comigo na mesma árvore.
Os outros quatro fizeram o mesmo, cada um em uma árvore.
Os rinocerontes passaram reto, não
nos viram. Tinham olhos vermelhos, pele podre, cheiravam rato morto.
Quando o último deles se perdeu
dentre as árvores, pude lembrar-me do Joe.
— Joe! — Disse a Greyson.
— Vamos. — Disse ele pulando da
árvore e me ajudando descer.
Os outros fizeram o mesmo.
Corremos na direção em que ele
seguiu, logo achamos a mochila dele no chão e logo depois, sua arma. Seguindo a
trilha que ele deixará com seus fortes passos, demos de cara com um abismo.
— Meu Deus! — Gritei.
— Vocês acham que ele... Caiu? — Tom perguntou
em pânico.
— Ei!! — Uma voz gritou, logo à
frente, no abismo. — Estou aqui!!
Logo uma mão apareceu, e a outra, era
Joe. Provavelmente na fuga, ele não percebeu o abismo e caiu. Por sorte ele
conseguiu se segurar em uma raiz.
— Eu estou indo! — Gritou Jon se
aproximando.
— Não! — Joe berrou em desespero. —
Olhem!
A rocha que suportava o peso do Joe no
abismo estava cedendo, mais alguns minutos e ia desmoronar e cair. Assim, se o
peso de Joe já iria fazer a rocha cair, com um homem a mais só iria acelerar o
processo.
— Vai desabar! Não cheguem perto! —
Ele se segurou mais forte nas raízes.
— Ai droga! Vou procurar algo para te
puxar! — Tom disse entrando de volta na mata.
— Não temos tempo! — Greyson começou
a se preocupar. — Essa rocha vai ceder!!
Em meio a pânico, tive uma idéia
maluca, não poderíamos perder nosso líder...
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