sábado, 23 de novembro de 2013

Capítulo 3

Convocação ao exército

No dia seguinte Greyson não apareceu na aula teórica, nem na aula prática de guerra, comecei a me preocupar, ele nunca falta, até mesmo por que, o que ele ficaria fazendo a não ser seguir as ordens e regras que o exército impõe a nós? Não era uma escolha faltar, ou deixar a escola.
 Andei por quase todo o paredão, apesar de ser sufocante ficar pressa como um rato, a extensão do muro era muito grande. Resolvi ir ao seu alojamento, ou a sua casa, como estávamos acostumados a falar.
 Bati de leve na porta, ninguém abriu, percebi que ela estava apenas encostada, eu a empurrei devagar e logo avistei Greyson sentado no sofá, com os olhos inchados e vermelhos, provavelmente estava chorando, segurando um papel.
— Greyson? — Disse assustada me sentando ao seu lado — O que aconteceu?
Ele não me respondeu, me entregou a carta que estava na mão.
— Me parece que o Coronel Jordan não queria me aplicar testes de recuperação — Falou enxugando algumas lágrimas.
Eu li, era uma carta de convocação, Coronel Jordan estava convocando Greyson ao exército, partiriam em dois dias, levariam armamento pesado em busca do ninho.
— Eles não podem fazer isso!! – me levantei gritando.
— Eles já fizeram. — ele disse inconformado — Eu não posso dizer ‘não’, tenho que aceitar, daqui a dois dias eu vou partir e vou te deixar claro, querida ... Não vou voltar...
— Você não pode fazer isso comigo!! — Gritei o mais forte que pude.
— Eu não tenho escolha! — Ele se levantou e gritou ainda mais forte.
Ele foi grosso comigo, eu tinha que levar em consideração o que ele estava passando, mas ele jamais levantou a voz dessa forma, não pude me conter e deixei uma lágrima cair.
– Ah, droga, me desculpa. — Ele me abraçou.
Greyson era frio, amargo, muitas vezes cruel, nunca comigo, mas eu o conhecia, o fato de ele nunca ter conhecido sua mãe, viver isolado, mexia com seus sentimentos, um abraço, apertado, foi provavelmente o máximo de carinho que ele já demonstrou por alguém.
Ele me soltou, e pediu para ficar sozinho, eu assenti e sai de seu alojamento.
 Voltando para a casa passei na frente da concentração dos Coronéis, os ‘Cabeças’ como Greyson às vezes os chamava. De repente, lembrei do abraço, imaginei como seria a despedida e não pensei duas vezes, invadi o local. Dentro do quartel só havia o Coronel Jordan, sentado em sua mesa, observando alguns gráficos e mapas muito complicados para mim, com uma xícara de café na mão esquerda.
— Coronel Jordan, o senhor não pode fazer isso. — Disse a ele mostrando mais coragem do que eu realmente estava.
Ele era um sujeito grande, alto, careca, musculoso, moreno, com marcas de batalha, um olhar profundo e sanguinário, se tinha alguém que eu temia em todo o paredão de concreto, era ele.
Pelo que me parecia seus papei estavam muito interessantes, ele demorou, mas por fim se inclinou colocando os cotovelos sobre a mesa e as mãos no queixo em forma pensativa.
— Não posso fazer o que, menina? — Ele me encarou — Espere, você é a filha do Comandante Josh...
Assenti.
— Você não respondeu minha pergunta. — Ele disse já perdendo a paciência.
— Coronel, você não pode enviar o Greyson para a busca fora do campo de proteção.
— E por que não?
— Ele tem 17 anos! Não tem o físico necessário, ele é um estrategista, ele raciocina como ninguém, ele pensa rápido, não é um soldado de guerra, ele um soldado que vence a guerra pensando.
— Garota, você não devia se intrometer nos meus assuntos só por que não quer perder um namoradinho.  — Ele voltou observar o papel pensativo, ignorando minha presença.
Senti vontade de lhe dar um soco no nariz.
— Senhor, o mandando para fora, você perderá um possível melhor estrategista, talvez o homem mais inteligente de todo seu exército, você deveria reavaliá-lo, o modo com que ele pensa. Você se surpreenderia...
Ele não me deixou concluir.
— Espere. É isso!
Eu o olhei com dúvida, ele tinha realmente aceitado minha idéia com tanta facilidade?
— Você irá junto!
— O que?!
— Você irá junto com Greyson e outros 5 homens em mais uma busca ao antídoto!
— Coronel, com todo respeito, o senhor esta ficando louco?
— Louco? Não percebe a ideia brilhante que eu tive? — Ele se levantou da cadeira.
Eu o olhei como se ele precisasse de uma camisa de força.
—Eu não te devo explicações. — Disse o mais arrogante possível — Porém, vou dizer. Eu conheço Greyson desde o dia que ele nasceu, um garoto frio, amargo, se ele não te conhecesse eu diria que até incapaz de demonstrar seus sentimentos, sua mãe morreu logo depois que ele nasceu. Seu pai está sempre ocupado de mais, mas você, você é tudo pra ele, você, Ellen, é a única coisa pela qual ele morreria ou ficaria vivo...
— Eu não entendo aonde quer chegar.
— Se você fosse com ele, isso o faria indestrutível. Você não percebe? Quando ele chegar lá fora, e vê como o mundo está... Como os demônios estão... Quando aquelas criaturas começarem a atacar... Você o manterá vivo. Você fará com que ele precise ficar vivo... Para te proteger...
— Isso é uma piada. — Tentei rir, mas era impossível. — E se eu não quiser ir?
— Você não tem escolha. Eu, EU, estou mantendo você e sua família viva por aqui, se você se recusar a seguir uma ordem minha, você, sua querida mãe e seu querido pai serão despejados para fora do paredão e consequentemente, virando jantar de zumbi. Escute menina, esse paredão é meu, eu construí com o suor dos meus homens, você vive aqui... De favor...
Fiquei em silêncio, olhando para os olhos daquele homem.
Era impossível discutir com ele...
—Está cometendo um erro. — Nesse momento tentei controlar minhas pernas bambas e segurar algumas lágrimas.
— Não tenha medo, você vai conseguir, eu acho. — Ele lançou um cruel sorriso. — E se não conseguir, o que de pior pode acontecer?
Eu não queria dar o gosto a ele de ver minhas lágrimas de pânico escorrer.
— Eu acho que os monstros estão aqui dentro... — Disse dando as costas.
Saí daquele lugar quase chorando, eu estava com medo, a escola havia me preparado para isso a minha vida toda, mas eu não estava pronta pra sair em uma busca.
 Andando, tentando controlar minhas lágrimas, meu medo, meu pavor, tentando raciocinar, me esbarro em alguém.
— Ei! — Ele disse me segurando pelos braços. — O que aconteceu? Está chorando?
Era Greyson.
— Não é nada — Encarei o chão.
— Olhe para mim. — Ele levantou meu rosto. — O que foi?

Eu tinha que contar. Daqui a dois dias eu iria para fora com ele e com mais um exército de jovens soldados, mas eu tinha medo, ele nunca iria me perdoar por fazer uma idiotice dessas, afinal, se eu não fosse perturbar o Coronel Jordan, ele nunca teria me colocado nessa história suicida...

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