Convocação
ao exército
No dia seguinte Greyson não apareceu
na aula teórica, nem na aula prática de guerra, comecei a me preocupar, ele
nunca falta, até mesmo por que, o que ele ficaria fazendo a não ser seguir as
ordens e regras que o exército impõe a nós? Não era uma escolha faltar, ou
deixar a escola.
Andei por quase todo o paredão, apesar de ser
sufocante ficar pressa como um rato, a extensão do muro era muito grande.
Resolvi ir ao seu alojamento, ou a sua casa, como estávamos acostumados a
falar.
Bati de leve na porta, ninguém abriu, percebi
que ela estava apenas encostada, eu a empurrei devagar e logo avistei Greyson
sentado no sofá, com os olhos inchados e vermelhos, provavelmente estava
chorando, segurando um papel.
— Greyson? — Disse assustada me
sentando ao seu lado — O que aconteceu?
Ele não me respondeu, me entregou a
carta que estava na mão.
— Me parece que o Coronel Jordan não
queria me aplicar testes de recuperação — Falou enxugando algumas lágrimas.
Eu li, era uma carta de convocação,
Coronel Jordan estava convocando Greyson ao exército, partiriam em dois dias,
levariam armamento pesado em busca do ninho.
— Eles não podem fazer isso!! – me
levantei gritando.
— Eles já fizeram. — ele disse
inconformado — Eu não posso dizer ‘não’, tenho que aceitar, daqui a dois dias
eu vou partir e vou te deixar claro, querida ... Não vou voltar...
— Você não pode fazer isso comigo!! —
Gritei o mais forte que pude.
— Eu não tenho escolha! — Ele se
levantou e gritou ainda mais forte.
Ele foi grosso comigo, eu tinha que
levar em consideração o que ele estava passando, mas ele jamais levantou a voz
dessa forma, não pude me conter e deixei uma lágrima cair.
– Ah, droga, me desculpa. — Ele me
abraçou.
Greyson era frio, amargo, muitas
vezes cruel, nunca comigo, mas eu o conhecia, o fato de ele nunca ter conhecido
sua mãe, viver isolado, mexia com seus sentimentos, um abraço, apertado, foi provavelmente
o máximo de carinho que ele já demonstrou por alguém.
Ele me soltou, e pediu para ficar
sozinho, eu assenti e sai de seu alojamento.
Voltando para a casa passei na frente da
concentração dos Coronéis, os ‘Cabeças’ como Greyson às vezes os chamava. De
repente, lembrei do abraço, imaginei como seria a despedida e não pensei duas
vezes, invadi o local. Dentro do quartel só havia o Coronel Jordan, sentado em
sua mesa, observando alguns gráficos e mapas muito complicados para mim, com
uma xícara de café na mão esquerda.
— Coronel Jordan, o senhor não pode
fazer isso. — Disse a ele mostrando mais coragem do que eu realmente estava.
Ele era um sujeito grande, alto,
careca, musculoso, moreno, com marcas de batalha, um olhar profundo e
sanguinário, se tinha alguém que eu temia em todo o paredão de concreto, era
ele.
Pelo que me parecia seus papei
estavam muito interessantes, ele demorou, mas por fim se inclinou colocando os
cotovelos sobre a mesa e as mãos no queixo em forma pensativa.
— Não posso fazer o que, menina? —
Ele me encarou — Espere, você é a filha do Comandante Josh...
Assenti.
— Você não respondeu minha pergunta.
— Ele disse já perdendo a paciência.
— Coronel, você não pode enviar o
Greyson para a busca fora do campo de proteção.
— E por que não?
— Ele tem 17 anos! Não tem o físico
necessário, ele é um estrategista, ele raciocina como ninguém, ele pensa rápido,
não é um soldado de guerra, ele um soldado que vence a guerra pensando.
— Garota, você não devia se
intrometer nos meus assuntos só por que não quer perder um namoradinho. — Ele voltou observar o papel pensativo,
ignorando minha presença.
Senti vontade de lhe dar um soco no
nariz.
— Senhor, o mandando para fora, você
perderá um possível melhor estrategista, talvez o homem mais inteligente de
todo seu exército, você deveria reavaliá-lo, o modo com que ele pensa. Você se
surpreenderia...
Ele não me deixou concluir.
— Espere. É isso!
Eu o olhei com dúvida, ele tinha
realmente aceitado minha idéia com tanta facilidade?
— Você irá junto!
— O que?!
— Você irá junto com Greyson e outros
5 homens em mais uma busca ao antídoto!
— Coronel, com todo respeito, o
senhor esta ficando louco?
— Louco? Não percebe a ideia
brilhante que eu tive? — Ele se levantou da cadeira.
Eu o olhei como se ele precisasse de
uma camisa de força.
—Eu não te devo explicações. — Disse
o mais arrogante possível — Porém, vou dizer. Eu conheço Greyson desde o dia
que ele nasceu, um garoto frio, amargo, se ele não te conhecesse eu diria que
até incapaz de demonstrar seus sentimentos, sua mãe morreu logo depois que ele nasceu.
Seu pai está sempre ocupado de mais, mas você, você é tudo pra ele, você,
Ellen, é a única coisa pela qual ele morreria ou ficaria vivo...
— Eu não entendo aonde quer chegar.
— Se você fosse com ele, isso o faria
indestrutível. Você não percebe? Quando ele chegar lá fora, e vê como o mundo
está... Como os demônios estão... Quando aquelas criaturas começarem a
atacar... Você o manterá vivo. Você fará com que ele precise ficar vivo... Para
te proteger...
— Isso é uma piada. — Tentei rir, mas
era impossível. — E se eu não quiser ir?
— Você não tem escolha. Eu, EU, estou mantendo você e sua família
viva por aqui, se você se recusar a seguir uma ordem minha, você, sua querida
mãe e seu querido pai serão despejados para fora do paredão e consequentemente,
virando jantar de zumbi. Escute menina, esse paredão é meu, eu construí com o
suor dos meus homens, você vive aqui... De favor...
Fiquei em silêncio, olhando para os
olhos daquele homem.
Era impossível discutir com ele...
—Está cometendo um erro. — Nesse
momento tentei controlar minhas pernas bambas e segurar algumas lágrimas.
— Não tenha medo, você vai conseguir,
eu acho. — Ele lançou um cruel sorriso. — E se não conseguir, o que de pior
pode acontecer?
Eu não queria dar o gosto a ele de
ver minhas lágrimas de pânico escorrer.
— Eu acho que os monstros estão aqui
dentro... — Disse dando as costas.
Saí daquele lugar quase chorando, eu
estava com medo, a escola havia me preparado para isso a minha vida toda, mas
eu não estava pronta pra sair em uma busca.
Andando, tentando controlar minhas lágrimas,
meu medo, meu pavor, tentando raciocinar, me esbarro em alguém.
— Ei! — Ele disse me segurando pelos
braços. — O que aconteceu? Está chorando?
Era Greyson.
— Não é nada — Encarei o chão.
— Olhe para mim. — Ele levantou meu
rosto. — O que foi?
Eu tinha que contar. Daqui a dois
dias eu iria para fora com ele e com mais um exército de jovens soldados, mas
eu tinha medo, ele nunca iria me perdoar por fazer uma idiotice dessas, afinal,
se eu não fosse perturbar o Coronel Jordan, ele nunca teria me colocado nessa
história suicida...
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